A violência de gênero como uma das maiores crises humanitárias do século XXI
Por Fabianna Cascavel
O século XXI prometia ser o tempo da expansão dos direitos humanos. No entanto, uma realidade brutal insiste em atravessar fronteiras, culturas e sistemas políticos: o assassinato sistemático de mulheres por serem mulheres. Esse fenômeno — que recebe o nome de feminicídio — já alcançou dimensões que especialistas classificam como epidemia global.
Enquanto o mundo volta os olhos para guerras, disputas geopolíticas e crises econômicas, uma guerra paralela segue em curso dentro das casas, nas ruas, nos campos de refugiados, nas zonas de conflito e até no ambiente digital. É uma guerra silenciosa contra metade da humanidade.
Segundo estimativas das Nações Unidas, mais de 83 mil mulheres foram assassinadas em 2024 em contextos de feminicídio. O dado por si só já é estarrecedor. Mas há um agravante ainda mais perturbador: cerca de 60% dessas mortes foram cometidas por parceiros íntimos ou familiares. Ou seja, para milhões de mulheres no planeta, o lugar mais perigoso não é o campo de batalha — é a própria casa.
Especialistas alertam que os números oficiais são apenas a ponta visível de um iceberg gigantesco de violência subnotificada, especialmente em países onde o crime sequer possui classificação legal específica.
Guerras, territórios ocupados e o corpo das mulheres como campo de batalha
Nos conflitos armados contemporâneos, as mulheres tornaram-se alvos estratégicos de violência. Em guerras modernas, o estupro, a tortura sexual e o assassinato de mulheres passaram a ser utilizados deliberadamente como instrumentos de terror, dominação e limpeza étnica.
A Relatora Especial da ONU sobre violência contra mulheres e meninas, Reem Alsalem, tem alertado para um grave retrocesso na proteção de civis em diferentes zonas de conflito.
Em regiões devastadas por guerras recentes — como o conflito entre Rússia e Ucrânia, as ofensivas militares no Oriente Médio, e diversas guerras esquecidas na África — relatos de organizações humanitárias indicam:
- estupros sistemáticos em territórios ocupados
- sequestro e tráfico de mulheres
- assassinato de mulheres e meninas durante ataques a civis
- destruição deliberada de hospitais e maternidades
Em alguns casos, meninas e adolescentes são executadas ou violentadas em ataques a escolas, um dos símbolos mais cruéis da barbárie contemporânea.
Organizações internacionais também denunciam o uso da violência sexual como arma de guerra, uma prática historicamente presente em conflitos mas que continua ocorrendo com assustadora frequência no século XXI.
O feminicídio doméstico: a face mais invisível da tragédia
Se nas guerras o corpo feminino é transformado em instrumento de terror político, no cotidiano a violência assume formas mais silenciosas — e igualmente letais.
Em muitos países, a maior parte dos feminicídios acontece em contextos domésticos:
ex-companheiros inconformados com separações, parceiros violentos, familiares que exercem controle extremo sobre a vida das mulheres.
No Brasil, um dos países que possui legislação específica para o crime, o feminicídio foi tipificado em 2015. Mesmo assim, o país continua registrando milhares de assassinatos de mulheres por ano, muitos deles precedidos por histórico de violência doméstica ignorado pelo sistema de proteção.
Especialistas ressaltam que a desigualdade estrutural de gênero ainda cria condições para que a violência floresça, especialmente em sociedades marcadas por:
- machismo cultural
- impunidade judicial
- dependência econômica feminina
- ausência de políticas públicas de proteção
Violência digital: o novo campo de ataque contra mulheres
A violência contra mulheres também se expandiu para um território relativamente novo: a internet.
Hoje, mulheres enfrentam:
- campanhas de ódio coordenadas
- ameaças de estupro e morte
- divulgação não consensual de imagens íntimas
- pornografia manipulada por inteligência artificial (deepfakes)
- perseguição virtual e assédio em massa
Figuras públicas — jornalistas, políticas, cientistas e ativistas — tornaram-se alvos preferenciais dessa violência digital.
O impacto não é apenas psicológico. Pesquisas indicam que o assédio online frequentemente se transforma em violência real, criando um ciclo de intimidação destinado a expulsar mulheres do espaço público.
Mudanças climáticas e desigualdade de gênero
A crise climática também tem aprofundado desigualdades de gênero.
Relatórios das Nações Unidas indicam que até 2050 cerca de 158 milhões de mulheres podem ser empurradas para a pobreza devido aos impactos climáticos — um número significativamente maior que o de homens.
Em regiões afetadas por secas extremas, enchentes ou crises alimentares, mulheres enfrentam riscos ampliados de:
- casamento infantil
- tráfico humano
- exploração sexual
- violência doméstica agravada pela crise econômica
Mesmo sendo as mais afetadas pelas crises ambientais, as mulheres ainda ocupam minoria nos espaços de decisão política sobre clima e desenvolvimento.
Direitos conquistados que estão sendo retirados
Talvez um dos sinais mais preocupantes do cenário global seja o retrocesso em direitos que pareciam consolidados.
O exemplo mais extremo é o Afeganistão, onde o regime do Talibã praticamente apagou mulheres da vida pública, proibindo-as de estudar, trabalhar ou circular livremente.
Mas a erosão de direitos não acontece apenas em regimes autoritários. Em diversas democracias, movimentos políticos têm tentado restringir:
- direitos reprodutivos
- acesso ao aborto legal
- políticas de igualdade de gênero
- programas de proteção contra violência doméstica
Em paralelo, práticas históricas de violência continuam ameaçando milhões de meninas, como a mutilação genital feminina, que ainda coloca mais de 4 milhões de crianças em risco todos os anos.
O poder político ainda é masculino
Apesar de avanços nas últimas décadas, a política mundial ainda é dominada por homens.
Mulheres ocupam menos de um terço dos assentos parlamentares no planeta, e a proporção é ainda menor em cargos executivos e posições estratégicas de poder.
Essa ausência tem consequências diretas:
políticas públicas sobre violência de gênero, saúde reprodutiva e proteção social frequentemente recebem menos prioridade.
Além disso, mulheres que entram na política enfrentam campanhas de deslegitimação, ataques misóginos e violência simbólica em níveis muito superiores aos de seus colegas homens.
Uma crise de humanidade
O feminicídio não é apenas um crime.
É um indicador brutal da falência de estruturas sociais, jurídicas e culturais que deveriam proteger a vida.
Quando milhares de mulheres são assassinadas todos os anos simplesmente por existirem, não se trata de casos isolados. Trata-se de um padrão estrutural de violência profundamente enraizado nas sociedades humanas.
O assassinato de mulheres por razões de gênero não é diferente, em sua lógica, de outras formas históricas de extermínio direcionado.
É, em essência, uma forma persistente de genocídio de gênero.
O que precisa mudar
Especialistas e organizações internacionais apontam algumas medidas essenciais para enfrentar a crise:
- tipificação universal do feminicídio como crime específico
- fortalecimento de políticas de proteção às vítimas de violência doméstica
- combate à impunidade judicial
- regulamentação das plataformas digitais contra violência de gênero
- ampliação da participação feminina na política
- financiamento adequado de programas humanitários e sociais
Sem essas ações, a tendência é clara: a violência continuará crescendo em escala global.
No mês das mulheres, um chamado ao mundo
Celebrar o Mês da Mulher não pode significar apenas homenagens simbólicas ou campanhas publicitárias.
É preciso reconhecer que, em pleno século XXI, milhões de mulheres vivem sob risco constante de violência, exploração e morte.
A humanidade costuma se indignar com guerras entre nações.
Mas existe uma guerra mais antiga, mais silenciosa e mais persistente:
a guerra contra as mulheres.
E enquanto essa guerra continuar sendo tolerada,
nenhuma sociedade poderá realmente se chamar de civilizada.
Imagem: Chat GPT


