O Brasil começa a encarar, ainda que tardiamente, a face mais cruel da gestão de Jair Bolsonaro: sua atuação criminosa e omissa diante da pandemia da Covid-19. Mais do que a tentativa frustrada de golpe de Estado — pela qual já foi condenado a mais de 27 anos de prisão — o verdadeiro genocídio se deu pela negligência calculada de um presidente que zombou da dor alheia, espalhou mentiras e atrasou deliberadamente a proteção da população brasileira.
Nesta quinta-feira (18), o ministro do STF, Flávio Dino, determinou a abertura de um inquérito contra Bolsonaro, seus filhos e outros 20 aliados, com base no relatório final da CPI da Covid-19. Trata-se de um marco: finalmente, o país pode começar a responsabilizar judicialmente os responsáveis por uma das maiores tragédias de sua história republicana.
O peso da omissão
Mais de 700 mil mortos. Esse é o rastro da pandemia no Brasil — um número que poderia ter sido significativamente menor, caso o governo tivesse agido com seriedade. Bolsonaro não apenas demorou a negociar vacinas, como ridicularizou o uso de máscaras, promoveu aglomerações e transformou em política de Estado o incentivo ao uso de medicamentos comprovadamente ineficazes, como a cloroquina.
Enquanto famílias enterravam seus mortos, o presidente debochava: “E daí?”; “Não sou coveiro”. O Brasil nunca esqueceu.
A CPI e seus desdobramentos
A CPI da Covid, realizada em 2021, não foi um espetáculo vazio. Foram quase seis meses de trabalhos, 67 reuniões, 500 requerimentos e 190 quebras de sigilo aprovadas. O relatório final, com 1.180 páginas, pediu o indiciamento de 66 pessoas e duas empresas. Só Bolsonaro foi citado 80 vezes e acusado de 10 crimes distintos, incluindo crimes contra a humanidade.
Agora, com a decisão de Flávio Dino, a Polícia Federal tem 60 dias para aprofundar as investigações e transformar em provas formais os indícios já revelados pela Comissão. Entre os investigados estão figuras centrais do bolsonarismo: os filhos Flávio, Eduardo e Carlos; parlamentares como Ricardo Barros, Carla Zambelli e Bia Kicis; ex-ministros como Onyx Lorenzoni e Ernesto Araújo; além de empresários bilionários como Carlos Wizard e Luciano Hang, que financiaram e sustentaram a máquina de desinformação.
Justiça tardia, mas necessária
A pergunta que ecoa é simples: por que demorou tanto? A tragédia da Covid-19 não foi fruto do acaso ou de uma fatalidade natural, mas sim de uma política deliberada de sabotagem às medidas sanitárias. O negacionismo de Bolsonaro e sua rede de aliados custou vidas, e o país não pode normalizar esse crime histórico.
Se a tentativa de golpe foi um atentado contra a democracia, a omissão na pandemia foi um atentado contra a própria vida. E, nesse caso, não há anistia possível, não há esquecimento aceitável.
É dever do Brasil cobrar que os culpados sejam responsabilizados — política, histórica e criminalmente. Só assim será possível honrar a memória das centenas de milhares de brasileiros que perderam a vida em meio ao descaso do governo.
Por Antonio Luiz
Imagem gerada por IA ChatGPT


