O silêncio da extrema direita e da direita brasileira diante do crime digital sexual da rede X

A rede social X, sob o comando do bilionário Elon Musk, tornou-se um território onde o crime digital avança sem freios, especialmente quando mediado por inteligência artificial. A mais recente denúncia envolvendo o uso da IA Grok para a criação e disseminação de imagens sexualizadas não consentidas — inclusive envolvendo crianças e adolescentes — escancara uma realidade alarmante: estamos diante de uma plataforma que permite, estimula ou, no mínimo, não coíbe práticas que configuram crimes sexuais graves.

Mais estarrecedor do que a própria denúncia é o silêncio ensurdecedor da extrema direita e da direita brasileira, que se autoproclamam guardiãs da família, da moral e dos “bons costumes”. Quando o Supremo Tribunal Federal, tempos atrás, no cumprimento de suas atribuições constitucionais, exigiu que a plataforma respeitasse a legislação brasileira, esses mesmos segmentos políticos reagiram com histeria. Falou-se em censura, ditadura, perseguição judicial. O Judiciário foi demonizado, o governo atacado, e a soberania nacional tratada como afronta ideológica.

Agora, porém, diante de denúncias concretas de crimes sexuais praticados com o auxílio de inteligência artificial, envolvendo mulheres, adolescentes e até crianças, essa mesma direita extrema direita fazem cara de paisagem. Nenhuma nota, nenhum protesto, nenhuma indignação moral. O que antes era “liberdade de expressão” revela-se, na prática, liberdade para violar direitos humanos fundamentais.

O Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) foi claro e responsável ao solicitar recentemente ao governo federal a suspensão da IA Grok no Brasil. O pedido se baseia em fundamentos sólidos: violação do Código de Defesa do Consumidor, da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), do Marco Civil da Internet e, de forma especialmente grave, do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e do recém-aprovado ECA Digital. Não se trata de ideologia, mas de proteção jurídica mínima contra abusos inaceitáveis.

A denúncia também expõe o caráter estrutural do problema. A IA não apenas cria ou edita conteúdos de cunho sexual: ela facilita, acelera e normaliza a violência, transformando corpos reais em objetos digitais de consumo, sem consentimento, sem controle e sem responsabilização efetiva da plataforma.

A deputada federal Erika Hilton agiu corretamente ao cobrar providências imediatas. O Estado brasileiro tem o dever constitucional de proteger crianças, adolescentes e mulheres contra qualquer forma de exploração sexual — seja ela física ou digital. Não há espaço para relativizações quando estamos falando de deepfakes pornográficos envolvendo menores de idade.

O silêncio da empresa responsável pelo Grok apenas reforça a gravidade do caso. Quando plataformas se recusam a responder, corrigir ou assumir responsabilidades, demonstram que o lucro e a ideologia falam mais alto do que a dignidade humana.

A pergunta que fica é simples e incômoda: onde estão a direita e a extrema direita agora? Onde estão os discursos inflamados sobre moral? Onde estão os defensores da família quando crianças são violentadas simbolicamente por algoritmos? A resposta parece evidente: a moral defendida por esse campo político é seletiva, instrumental e profundamente hipócrita.

O Brasil não pode aceitar que redes sociais se tornem zonas livres para crimes digitais sob o pretexto de liberdade de expressão. Liberdade não é licença para violar direitos. E soberania nacional não é censura — é o exercício legítimo da lei em defesa da sociedade.

Diante desse cenário, a suspensão da ferramenta, a investigação rigorosa e a responsabilização da empresa não são excessos: são medidas urgentes e civilizatórias. O que está em jogo não é um embate político, mas a proteção da dignidade humana em tempos de inteligência artificial sem limites éticos.

Por Damatta Lucas – Imagem: Freepik Free

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