O zelo seletivo do Conselho Federal de Medicina

Há silêncios que gritam. E há instituições cujo súbito zelo escancara, justamente, tudo aquilo que escolheram ignorar quando mais importava. O recente alarde do Conselho Federal de Medicina (CFM) diante da situação de Jair Bolsonaro — tratado com todas as regalias sob custódia do Estado, segundo relatos públicos — não é sinal de compromisso ético. É o retrato acabado de uma hipocrisia institucional construída durante os anos mais sombrios da história recente do Brasil.

Onde estava o CFM quando médicos receitavam cloroquina, ivermectina e azitromicina como se fossem balas, sem qualquer evidência científica, enquanto milhares morriam sufocados por um vírus que o próprio presidente da República tratava como “gripezinha”? Onde estava o rigor ético quando o Estado se recusava a comprar vacinas, desprezava ofertas da Pfizer e sabotava deliberadamente a imunização em massa, transformando o país em um laboratório de morte?

O CFM não apenas se omitiu. Foi conivente. Não recomendou a obrigatoriedade da vacina. Não se insurgiu contra o negacionismo. Não se levantou quando idosos foram usados como cobaias em hospitais privados, como no escândalo da Prevent Senior. Não se levantou quando o oxigênio faltou em Manaus e pessoas morreram asfixiadas. Aquilo, ao que parece, não era “problema de saúde”, nem “questão ética” digna de nota.

Mas agora é.

Agora, diante de um ex-presidente que incentivou o desprezo à vida, atacou a ciência, promoveu medicamentos ineficazes em rede nacional e estimulou a população a trabalhar sem máscara e sem vacina, o CFM descobre a preocupação com quedas, atendimentos médicos, protocolos, prontuários e condições de custódia.

É impossível não perguntar: preocupação com quem?

Certamente não com os milhares de brasileiros que morreram na pandemia. Nem com a população carcerária, historicamente submetida à alimentação precária, à desnutrição, à falta de higiene e à exposição permanente a doenças infecciosas em ambientes insalubres e desumanos. Nunca se soube de campanhas do CFM para pressionar o Estado a garantir dignidade médica nas prisões. Nunca se ouviu uma palavra da entidade sobre mulheres presas que dão à luz algemadas, sobre recém-nascidos separados de suas mães, sobre a violação cotidiana do princípio constitucional da personalidade da pena.

Esse zelo não existe para os invisíveis.

O CFM nunca se mobilizou para defender prisão domiciliar para gestantes e mães de recém-nascidos. Nunca publicou uma nota sequer contra a desumanidade estrutural do sistema prisional brasileiro. Nunca demonstrou horror diante da política deliberada de morte adotada durante a pandemia. Mas agora quer julgar o trabalho da Justiça, questionar procedimentos e posar de guardião da ética médica.

A ética que faltou quando o país sangrava.

O que se vê é um conselho que tolerou o uso político da medicina, que silenciou diante do charlatanismo oficial, que relativizou a ciência e virou o rosto para a morte em massa — mas que se agita quando o paciente tem nome, sobrenome, poder e aliados.

Se o Conselho Federal de Medicina quiser, algum dia, recuperar o mínimo de credibilidade diante da parcela consciente da sociedade brasileira — aquela que não esquece, não relativiza e não reescreve o passado recente — precisará começar reconhecendo sua própria omissão. Precisará explicar por que foi tão rigoroso agora e tão complacente quando a vida de milhões estava em jogo.

Até lá, cada nota, cada preocupação seletiva, cada gesto de zelo tardio não será lido como ética.
Será lido como aquilo que é: conivência histórica com a barbárie, disfarçada de corporativismo moral.

Por Damatta Lucas (Artigo baseado em relato da jornalista Hevelin Agostinelli – @hevelin.agostinelli) – em rede social)

Imagem Gerada por IA Chat GPT

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