Operação na Penha expõe a guerra invisível do Rio e o esgotamento da política de confronto

Quatro agentes mortos, 113 presos e uma cidade em choque: as imagens exclusivas da megaoperação nos complexos do Alemão e da Penha revelam o retrato brutal de uma guerra que insiste em não acabar

As imagens obtidas pela TV Globo com exclusividade na última terça-feira (28) mostram um Rio de Janeiro que parece ter esquecido o significado de normalidade. Em vídeos gravados por câmeras corporais e drones, agentes do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) enfrentam, em meio à mata fechada da região conhecida como Vacaria, no alto do morro da Penha, uma troca intensa de tiros com criminosos do Comando Vermelho.

Os sons das rajadas ecoam como num campo de batalha. Policiais avançam entre barricadas de carros queimados, sob o risco de emboscadas, enquanto outros, nas áreas mais baixas, tentam conter a fuga dos criminosos. É uma cena que se repete há décadas, mas raramente com tamanha intensidade e número de mortos.

Durante a operação, quatro agentes foram mortos — um deles, atingido na perna, aparece nas imagens sendo socorrido por colegas enquanto usava uma máscara preta de proteção contra bombas de gás. Ele sobreviveu.

Outras filmagens aéreas mostram o uso de granadas de gás para dispersar grupos armados que se escondiam entre vielas e vegetação densa. Em uma das sequências mais dramáticas, um blindado precisa abrir caminho à força entre carcaças incendiadas, símbolo da resistência desesperada dos criminosos e da limitação do Estado em impor sua presença.


Os números da tragédia

Segundo a Polícia Civil, dos 117 corpos levados ao Instituto Médico Legal (IML), 109 já foram identificados e 99 liberados para as famílias. Dos 69 denunciados pelo Ministério Público, cinco foram presos, incluindo integrantes diretos da facção que domina parte da Penha e do Alemão. Entre os foragidos está “Doca”, apontado como uma das lideranças do Comando Vermelho na região.

Ao todo, 113 pessoas foram detidas ao longo da operação. Após audiências de custódia, dois foram liberados.

A megaoperação, planejada a partir de uma investigação sobre o tráfico de armas e a presença de milicianos em áreas dominadas pelo crime, envolveu mais de 400 agentes das forças estaduais e federais. Foi uma das ações mais letais da década, reacendendo o debate sobre a eficácia e o custo humano das incursões policiais em comunidades do Rio.


Entre o medo e o silêncio

Na Penha, o fim de semana seguinte à operação foi de ruas esvaziadas. Locais tradicionais, como a Igreja da Penha e o parque de diversões da região, ficaram quase desertos. No comércio, o movimento ainda é tímido.

“Tá voltando ao normal, mas a gente sente que as pessoas têm medo de sair”, diz um lojista do calçadão. “A preocupação é permanente”, resume outro morador.

O medo é silencioso. Entre relatos de casas atingidas por balas e de moradores impedidos de circular, cresce a sensação de abandono. “A gente quer trabalhar, só isso”, afirma uma moradora que prefere não se identificar.


A cidade sitiada

A operação da Penha reacende uma ferida antiga: a guerra do Rio de Janeiro contra si mesmo.
Nos últimos cinco anos, as forças de segurança estaduais registraram mais de 2.500 mortes em confrontos. As incursões em favelas, frequentemente justificadas como “combate ao tráfico”, acabam transformando bairros inteiros em zonas de exclusão, onde a presença do Estado se resume a tiros e sirenes.

Especialistas alertam para o colapso de uma política de segurança baseada em confronto permanente. “O Rio vive uma militarização sem resultado. A cada operação, mata-se muito e muda-se pouco”, avalia o sociólogo José Cláudio Souza Alves, da UFRRJ.

Para ele, a violência deixou de ser exceção e passou a fazer parte da rotina de controle territorial — uma espécie de “normalização da guerra”.


Entre a ordem e o caos

A Secretaria de Segurança do Estado do Rio defende que a ação foi necessária e que os agentes reagiram a ataques de criminosos fortemente armados. O governo alega que a operação desarticulou células de comando que planejavam novos ataques à polícia.

Mas o saldo — de mortos, feridos e medo — reacende a pergunta que o Rio parece não conseguir responder: até quando o combate ao crime se dará à custa da própria vida dos que deveriam ser protegidos?

Enquanto a poeira baixa nas vielas da Penha, o Rio amanhece mais uma vez dividido entre a sensação de alívio e a de derrota. A guerra urbana continua — travada não apenas nas encostas, mas no coração de uma cidade que ainda busca uma saída entre a violência e a esperança.

Fonte: da Redação – Imagem; ChatGPT

Notícias recentes

Notícias em alta

Com notícias do Piauí, do Brasil e do Mundo!

©2024- Todos os direitos reservados. Clique Pi