Por Damatta Lucas
Se o Brasil vive hoje mergulhado numa polarização política, a quem devemos atribuir a culpa? A resposta é direta e incômoda: à grande imprensa. São os grandes meios de comunicação, travestidos de neutros, que alimentam diariamente a narrativa de que vivemos um país dividido entre “eles” e “nós”. E o mais grave: escondem, atrás de cada manchete, de cada editorial, de cada “análise de especialista”, um preconceito grotesco contra os mais pobres, contra a população trabalhadora, contra quem ousa defender um Estado social.
Não se trata aqui de defender Lula ou a esquerda, nem de demonizar a direita — que é parte necessária do equilíbrio democrático em qualquer país. O ponto é outro: a grande imprensa brasileira abandonou há muito tempo a missão de informar e optou por servir ao grande capital. Faz jornalismo seletivo, parcial, envenenado.
Veja o exemplo clássico: a insistência em pregar cortes nos gastos públicos justamente onde o Estado é mais essencial — saúde, educação, previdência, programas sociais como Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada. Mas quando o assunto são as bilionárias isenções fiscais para grandes conglomerados, incluindo o próprio Grupo Globo entre os maiores beneficiários, reina o silêncio cúmplice. Hipocrisia pura.
Outro silêncio ensurdecedor: as emendas parlamentares. Bilhões sequestrados do orçamento público, muitas vezes destinados a obras fantasmas e esquemas de corrupção, transformando o Congresso numa máquina de chantagem contra o Executivo. Onde estão as manchetes diárias cobrando o fim dessa sangria? A grande imprensa se cala.
E quando Donald Trump impõe tarifas injustas, criminosas, contra o Brasil — uma agressão denunciada até por veículos americanos —, os jornais daqui tratam a notícia como se fosse mera pressão natural do “mercado internacional”. Não há defesa veemente da soberania nacional. Pelo contrário: o que se vê é o velho complexo de vira-lata transmitido em editoriais e reportagens mornas, como se fosse obrigação do Brasil se curvar.
O silêncio conveniente sobre Eduardo Bolsonaro
O caso Eduardo Bolsonaro é um escândalo que, em qualquer democracia séria, custaria o mandato de imediato. Um deputado federal que abandona o país, conspira nos Estados Unidos contra o Congresso, contra o STF, contra o governo eleito, pedindo sanções que prejudicam o povo brasileiro. Um parlamentar que mente no exterior ao dizer que vivemos numa ditadura, ao mesmo tempo em que seu pai responde por tentativa de golpe e incitação ao assassinato de autoridades.
E a imprensa? Editorializa contra ministros do STF, ataca a comunicação do governo, mas não exige a cassação de um traidor da pátria. A omissão é criminosa.
O papel das pesquisas e a farsa da “polarização”
Outro capítulo da manipulação está nas pesquisas eleitorais. Institutos e veículos de comunicação insistem em ressuscitar Jair Bolsonaro, inelegível e réu em vários processos, como nome central para 2026. Não por convicção estatística, mas para manter Lula permanentemente na defensiva. É um jogo calculado: inflar a polarização para desgastar o atual governo.
E quando os números não agradam, chamam seus “analistas políticos” de estimação — quase sempre alinhados à direita — para “explicar” que a sociedade está cansada, sem opção, como se o povo brasileiro fosse incapaz de reconhecer conquistas sociais. É, no mínimo, um insulto.
A voz de Hevelin Agostinelli
A advogada Hevelin Agostinelli sintetizou bem essa desonestidade. Ela lembrou que, quando a lei é clara, não cabe à imprensa manipular a opinião pública para relativizar crimes. Pesquisa após pesquisa mostra um país que deseja justiça contra Bolsonaro e que apoia o STF. Mas o jornalismo brasileiro insiste em distorcer, como se fosse apenas “Lula versus Bolsonaro”, apagando conquistas e ocultando o óbvio: Lula representa, com todos os defeitos, a defesa do social, enquanto Bolsonaro é a encarnação do crime político.
O problema, portanto, não está apenas em uma direita agressiva e organizada, mas em uma imprensa que escolheu o lado errado da história. Uma imprensa que prefere humilhar Lula, minimizar avanços, inflar governadores de extrema direita — Tarcísio, Caiado, Zema, Ratinho Jr. — como supostas alternativas, quando na prática são bolsonaristas disfarçados. Todos já prometeram, caso cheguem ao Planalto, conceder indulto a Bolsonaro, se este estiver preso.
A verdade inconveniente
É preciso dizer sem rodeios: a grande imprensa brasileira não é apenas conservadora. É desonesta. É venal. É cúmplice da extrema direita. Trabalha dia e noite para plantar a ideia de que Lula “não é opção”, mesmo quando governa dentro da legalidade e enfrenta uma máquina de sabotagem política.
O resultado? Uma opinião pública contaminada, trabalhadores que chegam em casa exaustos e só têm tempo de consumir análises enviesadas, distorcidas, que martelam a crítica permanente contra o governo. É assim que se molda uma percepção coletiva injusta, mentirosa, criminosa.
Se o Brasil está dividido, a responsabilidade maior não é da política, mas da imprensa que abandonou a verdade em nome do lucro e do ódio.
Imagem: ChatGPT


