Mais uma vez o Piauí agoniza diante da estiagem. Mais uma vez dezenas de cidades veem suas torneiras secarem, seus açudes virarem poeira, seus animais tombarem pela sede e sua agricultura desaparecer como se fosse uma miragem. E mais uma vez a solução apresentada é a mesma de sempre: os carros-pipas. A velha, carcomida e lucrativa “indústria da seca” volta a operar com força, sobrevivendo da miséria do povo que implora por um copo d’água.
A pergunta é: até quando? Até quando o sertanejo terá que ser refém de promessas vazias, discursos de campanha e soluções paliativas que nunca atacam o problema de frente? Onde estão os bilhões das emendas parlamentares? Onde estão os projetos estruturantes que poderiam mudar a realidade das comunidades rurais, garantindo acesso à água de forma digna e permanente?
Na seca, os políticos somem. Deputados e senadores que, em Brasília, se orgulham das cifras milionárias que movimentam para projetos que ninguém vê, fecham os olhos para a fome, para a sede, para o gado morto nas estradas, para a terra rachada. Nas prefeituras, a cena não é diferente: improviso, paliativos, dependência da distribuição de água que nunca chega a todos. O Estado diz que ajuda com carros-pipa (!?). O resultado é um povo abandonado, condenado a viver em ciclos de sofrimento e promessas quebradas.
Enquanto isso, a seca segue implacável. Crianças bebem água imprópria, famílias passam dias sem abastecimento, agricultores perdem suas plantações, rebanhos são dizimados. O sertanejo, resiliente, não precisa de esmolas nem de paliativos: precisa de políticas públicas sérias, de obras de infraestrutura hídrica, de projetos de captação e armazenamento que lhe deem condições de conviver com a seca.
Mas o que se vê é o contrário: o silêncio ensurdecedor dos que foram eleitos para representar o povo. Uma omissão que custa caro. Custa vidas, custa dignidade, custa futuro.
Não é a falta de recursos o problema — é a falta de prioridade. Não é a ausência de soluções — é a ausência de vontade política. A seca não é novidade, nunca foi surpresa. O que é escandaloso é a negligência criminosa dos governos e da bancada piauiense, que continuam a transformar a dor do sertão em palanque, e a sede do povo em moeda política.
Chega de promessas. Chega de paliativos. O sertão não precisa de carros-pipas: precisa de abastacimento de água permanente para resolver um problema que é secular e, por isso, já deveria ser objeto de solução. Precisa de dignidade. E precisa, sobretudo, de representantes que não desapareçam como a chuva no primeiro sol da estiagem.
Por Antonio Luiz Moreira Bezerra – Imagem: ChatGPT


