Opinião – Ministros alinhados a Bolsonaro marcam divisão no STF

O Supremo Tribunal Federal (STF) atravessa um dos momentos mais delicados de sua história recente. Em meio ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro e às pressões internacionais vindas do governo Donald Trump, a Corte se mostra dividida entre ministros que atuam de forma firme na defesa do Estado Democrático de Direito e outros que, sistematicamente, se alinham ao bolsonarismo.

Ministros indicados por Bolsonaro, como André Mendonça e Nunes Marques, têm repetidamente atuado como contrapeso às decisões que envolvem o ex-presidente e seus aliados. Ao lado deles, Luiz Fux também tem se posicionado em diversas ocasiões de forma mais próxima às pautas do bolsonarismo, configurando uma clara linha de divisão dentro do STF.

O discurso de Mendonça contra o “ativismo judicial”

Na última sexta-feira (22), André Mendonça criticou duramente o que chamou de “ativismo judicial”, num discurso feito a empresários no Rio de Janeiro. Segundo ele, o Judiciário não deve ser “fator de inovação e criação legislativa” e precisa adotar a chamada “autocontenção”.

A fala acontece apenas dois dias após a Polícia Federal indiciar Jair Bolsonaro e o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) por tentativa de golpe de Estado e coação no curso do processo. Mesmo diante de provas e investigações que apontam para um ataque organizado contra a democracia, Mendonça prefere questionar a legitimidade da atuação judicial, aproximando-se do discurso do próprio Bolsonaro, que há anos ataca o STF.

Essa não é a primeira vez que Mendonça assume posição em sintonia com o bolsonarismo. Desde sua indicação à Corte, ele já votou em casos sensíveis de maneira a favorecer o ex-presidente e seus aliados, consolidando uma imagem de magistrado que não conseguiu se desvincular de quem o levou ao Supremo.

O contraponto de Moraes

No mesmo evento, o ministro Alexandre de Moraes, relator da ação que julgará a tentativa de golpe, lembrou que o Brasil tem um “histórico de golpismo” e que o respeito ao Judiciário só existe quando há independência.

“Judiciário vassalo, covarde, que quer fazer acordos para que o país momentaneamente deixe de estar conturbado, não é independente”, afirmou Moraes, num recado claro a setores que buscam reduzir a atuação firme da Corte. Moraes, alvo de sanções do governo Trump, simboliza a resistência do STF frente às pressões externas e internas.

A divisão interna e o impacto internacional

A postura de ministros alinhados ao bolsonarismo não passa despercebida. Num momento em que o STF enfrenta ataques diretos do governo Trump — que chegou a aplicar a Lei Magnitsky contra Moraes —, a divisão interna fragiliza a imagem de unidade e força da Corte.

Enquanto parte do Supremo busca assegurar a estabilidade democrática e enfrentar os ataques golpistas, outra parte age como uma espécie de “ala de defesa” do ex-presidente e de sua agenda política.

Histórico de alinhamento

  • André Mendonça: indicado por Bolsonaro como o “ministro terrivelmente evangélico”, já manifestou posições alinhadas ao ex-presidente em julgamentos de cunho político e eleitoral.
  • Nunes Marques: frequentemente acompanha votos que favorecem interesses de aliados do bolsonarismo, sendo chamado por críticos de “trincheira bolsonarista no STF”.
  • Luiz Fux: ainda que não seja diretamente vinculado ao bolsonarismo, tem assumido posições que o aproximam dessa linha, sobretudo em votações polêmicas que envolvem o equilíbrio entre os Poderes.

👉 Essa divisão, em um momento tão crítico, reforça a percepção de que parte do STF ainda não conseguiu se libertar da influência política do bolsonarismo, mesmo diante de crimes que atentam contra a democracia.

Por Damatta Lucas – Imagem: Marcello Casal

Notícias recentes

Notícias em alta

Com notícias do Piauí, do Brasil e do Mundo!

©2024- Todos os direitos reservados. Clique Pi