Oposição impõe derrota a governistas e elege presidente da CPI do INSS

A eleição de Carlos Viana (Podemos-MG) para a presidência e a nomeação de Alfredo Gaspar (União-AL) para a relatoria da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) representam uma vitória tática significativa da oposição. Isso é uma surpresa porque, tradicionalmente, as comissões são comandadas por uma composição que reflete o acordo entre a base governista e a presidência das Casas. A derrota de Omar Aziz (aliado de Alcolumbre, que por sua vez é mais próximo do governo) mostra que a oposição (com núcleo no bolsonarismo e partidos de centro-direita) conseguiu articular um bloco coeso e derrotar a indicação oficial.

  • Presidência (Carlos Viana): Embora do Podemos, um partido que às vezes flutua, sua eleição foi um projeto da oposição. Ele terá o controle dos trabalhos, da pauta, das convocações de testemunhas e do ritmo das investigações.
  • Relatoria (Alfredo Gaspar): Esta é a peça-chave. Gaspar é um bolsonarista declarado e já atuou de forma alinhada a este grupo, como na relatoria favorável a Alexandre Ramagem. O relator é quem conduz a investigação day-to-day, formula os pedidos de quebra de sigilo, ouve testemunhas e, o mais importante, escreve o relatório final, que pode incluir ou não pedidos de indiciamento. Quem controla a relatoria controla a narrativa final.

2. Os objetivos e riscos para o Planalto:

A oposição, agora no comando da CPMI, tem dois objetivos claros:

  • Objetivo imediato (desgaste político): Ampliar ao máximo a investigação para vincular o esquema de desvios, direta ou indiretamente, a figuras ligadas ao governo Lula. O alvo principal, como citado, é o Sindnapi, sindicato presidido por Frei Chico, irmão do presidente. Mesmo que o esquema tenha começado antes, a oposição tentará mostrar que ele continuou ou que há conexões com o atual governo. O objetivo é criar uma cortina de fumaça diária de acusações e manchetes negativas, desgastando a imagem do governo.
  • Objetivo de longo prazo (Eleições de 2026): Transformar a CPMI em um palco eleitoral. As sessões serão transmitidas ao vivo e servirão para que deputados e senadores da oposição construam suas narrativas e sua visibilidade, atacando o governo e associando Lula à corrupção. A meta é reativar o eleitorado anti-petista e criar um “caso” que ecoe até a próxima eleição.

3. O que o governo deve fazer a partir de agora:

A estratégia do governo e de sua base aliada precisa ser sofisticada e proativa:

  • Cooperação formal e transparência seletiva: O governo não pode obstruir a CPI. Deve determinar que o INSS, a CGU e demais órgãos cooperem formalmente, fornecendo documentos e dados que sejam solicitados dentro da legalidade. Isso tira o argumento de “obstrução” da oposição.
  • Ampliação do escopo temporal (contra-ataque): Esta é a arma mais importante da base governista. Eles devem insistir incansavelmente que a investigação não pode se restringir ao governo atual. O esquema foi descoberto e investigado pela PF e CGU agora, mas os desvios começaram em 2021, no governo Bolsonaro. A base deve pressionar para que sejam convocados ex-ministros da Previdência e da Economia de Bolsonaro (como Paulo Guedes e Onyx Lorenzoni), além de ex-presidentes do INSS daquela gestão. A pergunta que deve ser repetida é: “O que a gestão anterior fez para combater esse esquema que já operava sob seu nariz?”
  • Exposição da partialidade da relatoria: A base governista precisa usar sua bancada na CPMI para expor publicamente qualquer manobra evidentemente parcial do relator, Alfredo Gaspar. Se ele se recusar a investigar o período anterior ou focar exclusivamente em alvos ligados ao PT, os governistas devem denunciar isso à imprensa e à opinião pública, caracterizando a CPI como um “circo político” e não uma investigação séria.
  • Narrativa paralela: Enquanto a oposição foca no Sindnapi, o governo deve manter o foco na vítima: o aposentado e o pensionista. A narrativa deve ser: “Estamos aqui para descobrir quem roubou o dinheiro de vocês, independentemente de quando ou quem foi. O governo Lula foi quem descobriu e está combatendo o esquema.”

4. Como a população deve ficar atenta e exigir uma investigação limpa:

A população é a grande interessada e pode exercer pressão:

  • Acompanhar as sessões com espírito crítico: Não absorver apenas as manchetes espetaculosas. Observar quem está sendo convocado e, principalmente, quem não está. Questionar se a investigação está sendo ampla ou seletiva.
  • Cobrar todos os parlamentares: Exigir de seus deputados e senadores, independentemente de partido, que busquem a verdade dos fatos e não o aproveitamento político. Cobrar transparência e isenção.
  • Valorizar as provas concretas: A PF e a CGU já têm um vasto conjunto de provas e investigações técnicas. A população deve cobrar que a CPMI se baseie nessas evidências, e não em achismos ou depoimentos teatrais sem fundamento.
  • Pressão nas redes sociais e na mídia: Usar canais de comunicação para questionar a parcialidade da investigação se ficar claro que ela está sendo direcionada apenas para um lado. Lembrar que o esquema é antigo e perguntar: “Por que não estão investigando os responsáveis pela pasta quando o crime começou?”

Conclusão:

O desdobramento será intensamente político e conturbado. A oposição, no comando, tentará focar no desgaste do governo Lula. A base governista, por sua vez, tem a difícil tarefa de tentar virar o jogo, ampliando o escopo para incluir a gestão Bolsonaro e expondo a parcialidade da investigação. O risco para o Planalto é real, mas a oposição também corre o risco de, se for muito escancaradamente parcial, ver a CPMI perder credibilidade e ser vista pela população como mais uma guerra política, e não uma busca genuína pela verdade e pela punição de todos os responsáveis, independentemente de sua filiação partidária ou período de governo. A chave para o cidadão é acompanhar com atenção e cobrar isenção.

Por Damatta Lucas – Imagem: Freepik

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