Pesquisas eleitorais são fotografias de um instante — e, muitas vezes, fotos com filtro. A mais recente sondagem da Quaest sobre a corrida presidencial de 2026, amplamente repercutida pela mídia tradicional, cumpre exatamente esse papel: mais do que medir intenções de voto, ajuda a construir narrativas políticas.
O dado que mais chama atenção não é a liderança de Lula no primeiro turno em todos os cenários — algo relativamente esperado —, mas a súbita “densidade eleitoral” atribuída ao senador Flávio Bolsonaro, que aparece sistematicamente em segundo lugar, com percentuais entre 21% e 27%. A pergunta que precisa ser feita, e repetida à exaustão, é simples: Flávio Bolsonaro tem, de fato, esse tamanho político?
Um candidato recém-lançado — e funcional
O lançamento do nome de Flávio Bolsonaro não surge de um processo orgânico, de construção política nacional ou de reconhecimento popular amplo. Ele acontece como movimento tático, num contexto de pressão explícita do bolsonarismo sobre o Congresso Nacional para destravar duas pautas centrais: a PL da chamada “dosimetria” e a anistia aos envolvidos nos atos golpistas.
Colocar Flávio como “plano B” é menos sobre eleição e mais sobre chantagem política institucionalizada. A candidatura funciona como instrumento de barganha, não como projeto real de país.
Metodologia, mídia e interesses
A Quaest, contratada pela Genial Investimentos — um ator relevante do mercado financeiro —, opera dentro de uma lógica conhecida: fragmentar o campo da direita, mas manter um nome da família Bolsonaro no centro da disputa, garantindo visibilidade, oxigênio político e sobrevivência midiática ao bolsonarismo.
É nesse ponto que a metodologia se mistura à política editorial. A exclusão do nome de Jair Bolsonaro, inelegível, cria artificialmente um vácuo que precisa ser preenchido. Flávio surge, então, como herdeiro automático, ainda que 62% dos entrevistados afirmem não votar nele e 54% considerem erro a escolha feita pelo pai.
Ou seja: os próprios dados da pesquisa desmentem a narrativa de viabilidade que parte da imprensa insiste em empurrar.
A velha dificuldade da mídia em lidar com Lula
Nada disso ocorre no vazio. O presidente Lula segue sendo uma figura indigesta para os grandes conglomerados de mídia, especialmente Globo, Folha de S.Paulo e Estadão. Não por acaso, mesmo liderando todos os cenários e vencendo todos os adversários no segundo turno, sua aprovação é apresentada de forma negativa, sempre enfatizando o “empate técnico” entre aprovação e desaprovação.
O mesmo rigor crítico, curiosamente, não é aplicado ao bolsonarismo, mesmo após tentativa de golpe, ataques às instituições e uma herança econômica e social devastadora.
Números que viram pó
A história recente da política brasileira ensina: pesquisas fora do ano eleitoral tendem a evaporar. Nomes que aparecem inflados desaparecem; outros, subestimados, crescem. O que permanece é a realidade concreta: governo, economia, emprego, renda, política externa e capacidade de articulação.
E, nesse terreno, os próprios dados da Quaest revelam sinais importantes: caiu a percepção de piora da economia, aumentou a sensação de facilidade para conseguir emprego e cresceu o número de pessoas que defendem uma nova candidatura de Lula.
Conclusão: mais narrativa do que realidade
A pesquisa não prova a força de Flávio Bolsonaro; ela revela o esforço de parte do sistema político-midiático em fabricar uma alternativa “aceitável” da extrema direita, mantendo viva uma marca que já mostrou seus limites — e seus riscos.
Questionar esses números não é negacionismo estatístico. É leitura política. Porque democracia não se mede apenas por percentuais, mas por contexto, intenção e, sobretudo, por quem ganha com a divulgação de cada cenário.
E, nesse jogo, a pergunta central segue ecoando: quem está medindo a realidade — e quem está tentando moldá-la?
Por Damatta Lucas – Imagem Gerada por IA ChaGPT


