Quando a mulher incomoda: o preconceito da mídia brasileira contra o protagonismo feminino

Por Damata Lucas

É sintomático observar como a grande mídia brasileira ainda se comporta quando uma mulher ousa ocupar espaços de protagonismo, especialmente na política ou em assuntos de interesse público. A crítica, o deboche, o exagero e, muitas vezes, o silenciamento revelam mais sobre quem escreve do que sobre quem é alvo da matéria. A vítima, quase sempre, é uma mulher. E não uma mulher qualquer — mas aquela que pensa, fala, questiona e não se conforma com o papel decorativo que parte da sociedade ainda espera que ela cumpra.

O caso mais recente é o da socióloga Janja da Silva, primeira-dama do Brasil e esposa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Durante uma viagem oficial à China, marcada por acordos bilionários entre os dois países — com impactos positivos nas áreas de tecnologia, energia e comércio —, Janja ousou falar sobre um tema urgente: a regulação das redes sociais, especialmente no que diz respeito à violência contra mulheres e crianças. Em vez de ganhar o devido destaque como uma intervenção legítima, embasada e preocupada com o bem coletivo, a fala de Janja foi ridicularizada em diversos meios de comunicação, que a acusaram de “constranger” o presidente Lula ou de “atrapalhar” a diplomacia brasileira.

A repercussão seguiu o mesmo roteiro de sempre: minimizar os acordos internacionais, exagerar o tom de crítica à mulher e reduzir sua atuação a algo fútil ou desnecessário. O que diz muito sobre a misoginia estrutural que ainda permeia o jornalismo brasileiro, sobretudo quando lida com mulheres em posições de influência.

Janja não está sozinha nessa trajetória de deslegitimação. A ex-presidente Dilma Rousseff foi constantemente alvo de piadas machistas e críticas desproporcionais ao longo de seu governo — muitas vezes por sua aparência, sua voz, sua postura ou até pela forma como se expressava. As gafes que seriam tratadas com complacência em políticos homens, nela viravam motivo de escárnio. Sua queda, inclusive, foi acompanhada por um coro misógino que não disfarçava o prazer em ver uma mulher derrubada.

Outro exemplo é a atual ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, que há décadas enfrenta desconfiança e hostilidade por parte de setores conservadores da política e da mídia. Mesmo com sua trajetória impecável, reconhecimento internacional e uma postura ética rara, Marina é frequentemente tratada com condescendência ou ironia — especialmente quando assume posições firmes contra interesses poderosos.

Esses ataques constantes não são apenas casos isolados de machismo midiático. Eles refletem um problema muito maior, que se traduz em dados alarmantes: o Brasil é o país que mais mata mulheres no mundo. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2023 foram registrados 1.463 feminicídios, uma média de uma mulher morta a cada 6 horas, sendo 61% delas negras. O número cresceu 1,6% em relação ao ano anterior, refletindo uma sociedade ainda marcada pela violência de gênero, pela desigualdade e pela naturalização do ódio à mulher que se impõe.

E o papel da mídia nesse cenário é crucial. Quando jornais, sites e programas de TV ridicularizam mulheres por ocuparem espaços públicos, por expressarem suas ideias, por quererem participar da construção de políticas públicas, estão reforçando o imaginário coletivo de que mulher deve “saber seu lugar”. Estão dizendo, mesmo que implicitamente, que política, poder e opinião não são assuntos para elas.

É urgente que a imprensa brasileira reveja seus próprios preconceitos. A comunicação tem força para mudar mentalidades, mas também para perpetuar desigualdades. E, hoje, infelizmente, muitas vezes atua como cúmplice de uma estrutura que ainda resiste a ver mulheres como protagonistas da própria história.

Enquanto isso, Janja, Marina, Dilma, Djamila Ribeiro, Erika Hilton, Benedita da Silva, Cida Bento e tantas outras continuam abrindo caminho, mesmo que isso custe o preço do linchamento simbólico. Porque protagonismo feminino, no Brasil, ainda incomoda. Mas é justamente por isso que ele é tão necessário.

Imagem: Fernando Frazão

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