Quando a nação deixa de confiar: o descrédito das instituições brasileiras e o risco para a democracia

O Brasil vive hoje um dos momentos mais delicados de sua história recente no que diz respeito à confiança da população em suas instituições. Uma pesquisa recente do instituto Datafolha escancara aquilo que já se percebe no cotidiano político e social do país: os brasileiros confiam cada vez menos nas estruturas que deveriam sustentar a democracia.

Quando uma sociedade passa a desconfiar de quase todas as suas instituições — partidos, Congresso, Judiciário, governo e até da imprensa — o problema deixa de ser apenas político. Ele se torna estrutural. Trata-se de uma crise de legitimidade.

Os números são contundentes. Os partidos políticos lideram o ranking da desconfiança: 52% dos brasileiros afirmam não confiar neles. Outros 42% dizem confiar apenas um pouco e somente 5% afirmam confiar muito. Não se trata apenas de rejeição a uma ou outra legenda, mas de um esgotamento profundo do modelo de representação política.

O Congresso Nacional também não escapa desse cenário. Segundo o levantamento, 45% dos brasileiros dizem não confiar no Parlamento. Apenas 5% afirmam confiar muito. A avaliação do desempenho legislativo também revela um quadro desanimador: 39% consideram o trabalho do Congresso ruim ou péssimo, enquanto apenas 14% o classificam como bom ou ótimo.

A Presidência da República igualmente enfrenta forte desconfiança popular. O levantamento aponta que 43% dos brasileiros dizem não confiar na instituição. Em outras palavras, quase metade da população demonstra pouca ou nenhuma confiança no centro do Poder Executivo.

Mas talvez um dos dados mais reveladores — e preocupantes — seja o que envolve a imprensa brasileira. De acordo com a pesquisa, 36% dos brasileiros dizem não confiar nos veículos de comunicação. Apenas 15% afirmam confiar muito.

Esse desgaste não surge do nada. Nos últimos anos, parte significativa da imprensa brasileira abandonou o papel de mediadora imparcial da informação e passou a atuar, muitas vezes, como um verdadeiro ator político. A seleção de pautas, o destaque seletivo de escândalos, a omissão de determinados fatos e a amplificação de outros criaram em grande parte da sociedade a percepção de que determinados veículos operam mais como instrumentos de disputa política do que como instituições comprometidas com a informação pública.

Quando a imprensa passa a ser vista dessa forma, o dano para a democracia é profundo. A credibilidade do jornalismo é um dos pilares do debate público. Sem confiança na informação, abre-se espaço para desinformação, radicalização e narrativas paralelas.

O Judiciário também enfrenta desgaste crescente. A desconfiança em relação ao Supremo Tribunal Federal atingiu o maior nível da série histórica: 43% dos brasileiros dizem não confiar na Corte. O índice subiu em relação à pesquisa anterior, realizada em dezembro de 2024.

O Poder Judiciário como um todo também sofre com essa perda de credibilidade. Hoje, 36% dos brasileiros dizem não confiar no sistema judicial — um aumento significativo em relação aos 28% registrados no levantamento anterior.

Até mesmo as Forças Armadas, tradicionalmente uma das instituições mais respeitadas no país, registraram queda importante nos níveis de confiança. O percentual dos que dizem confiar muito caiu de 34% para 26%.

Esses números revelam algo maior do que simples insatisfação momentânea. Eles mostram uma erosão progressiva da confiança pública nas instituições que estruturam o Estado brasileiro.

Uma democracia não se sustenta apenas em eleições. Ela depende de algo ainda mais fundamental: a legitimidade das instituições perante a sociedade. Quando essa legitimidade se enfraquece, o sistema democrático começa a perder sua base de sustentação.

E é exatamente isso que os números sugerem.

Uma população que deixa de confiar em seus partidos não acredita mais na representação política. Uma população que desconfia do Congresso passa a ver o Parlamento como distante ou ineficiente. Uma população que questiona o Judiciário começa a duvidar da própria justiça. E uma população que não confia na imprensa perde um dos principais instrumentos de fiscalização do poder.

O resultado é um ambiente de descrédito generalizado.

Esse tipo de cenário é terreno fértil para crises institucionais, populismos autoritários e soluções simplistas para problemas complexos. Quando as instituições deixam de ser vistas como legítimas, cresce a tentação de substituí-las por líderes, discursos ou movimentos que prometem resolver tudo “fora do sistema”.

A história política mundial mostra que esse caminho raramente termina bem.

Reconstruir a confiança institucional no Brasil será um dos maiores desafios da democracia nos próximos anos. Isso exige reformas, transparência, responsabilidade pública e, sobretudo, compromisso real com o interesse coletivo.

Instituições que não escutam a sociedade acabam perdendo sua autoridade moral. E instituições sem autoridade moral dificilmente conseguem sustentar uma democracia saudável.

Os números da pesquisa Datafolha são, portanto, mais do que um retrato da opinião pública. Eles são um alerta.

Um alerta de que a democracia brasileira precisa urgentemente reconstruir seus laços de confiança com a sociedade.

Antes que o descrédito se transforme em algo ainda mais difícil de reparar.

Por Severino Severo – Imagem: Chat GPT

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