Quando Cristo sai do centro: a transformação das igrejas evangélicas em plataformas de poder

Por Severino Severo

Com base em análise da jornalista e publicitária Fernanda Cappellesso, especialista em geopolítica

As igrejas evangélicas brasileiras estão deixando de ser cristãs. A afirmação pode soar dura, mas não é exagero retórico: trata-se de um diagnóstico. Um alerta que emerge da observação histórica, teológica e política sobre a profunda transformação vivida por parte expressiva do movimento evangélico no Brasil nas últimas décadas.

O cristianismo, por definição, tem um centro — e esse centro é Jesus Cristo. Quando Cristo é deslocado, o que permanece pode até parecer fé, emoção ou fervor religioso, mas já não é cristianismo. É outra coisa. Hoje, multiplicam-se templos onde se fala mais de Davi, Salomão e Josué do que do próprio Jesus. E, quando Jesus aparece, não é o Cristo dos pobres, dos injustiçados, do sofrimento e da cruz, mas o “Jesus do sucesso”, moldado à lógica do mercado, da vitória material e da prosperidade financeira.

Essa transformação é analisada de forma contundente pela jornalista e publicitária Fernanda Cappellesso, que também atua como especialista em geopolítica. Segundo ela, o crescimento numérico do evangelicalismo no Brasil — que já reúne cerca de 27% da população, conforme o Censo Demográfico de 2022 — veio acompanhado de uma profunda mudança de conteúdo teológico e simbólico.

Três fases do protestantismo no Brasil

Para compreender esse processo, é preciso olhar para a história. O protestantismo brasileiro passou por três grandes fases.

A primeira foi o protestantismo histórico, marcado pela chegada de presbiterianos, metodistas e batistas. Eram igrejas voltadas à educação, ao serviço social e à formação crítica. A fé caminhava junto com escolas, universidades e compromisso comunitário.

A segunda fase foi o pentecostalismo clássico, no início do século XX, com ênfase na ação do Espírito Santo. Igrejas como a Assembleia de Deus — fundada em 1911, no Pará, por missionários norte-americanos — e a Congregação Cristã no Brasil surgem nesse período. Apesar do fervor espiritual, ainda havia simplicidade e foco comunitário.

A terceira fase, porém, muda tudo: o neopentecostalismo, que emerge nos anos 1970 e explode nos anos 1980. É nesse momento que entram em cena o marketing religioso, o uso massivo da mídia, o culto-espetáculo, a teologia da prosperidade e a lógica empresarial. O altar vira palco, o pastor vira marca, e a fé, produto.

A importação de uma fé moldada nos Estados Unidos

Grande parte dessa nova teologia vem dos Estados Unidos. Um dos pilares é o dispensacionalismo, uma forma de interpretar a Bíblia criada no fim do século XIX, que divide a história em “eras” nas quais Deus agiria de maneiras diferentes. Essa visão foi popularizada pela Bíblia de Scofield, publicada em 1909, que influenciou profundamente cristãos norte-americanos — e, mais tarde, brasileiros.

Essa leitura separa Israel e a Igreja como dois planos distintos de Deus e interpreta a história mundial como um grande mapa profético que caminha para o Armagedom. A partir daí, difundiu-se a ideia de que abençoar o Estado de Israel traria bênçãos divinas, transformando um país em símbolo sagrado e a fé em instrumento geopolítico.

No Brasil, essa visão chegou pelas missões e pelos canais de televisão. O resultado é visível: bandeiras de Israel nos altares, marchas religiosas com símbolos estrangeiros e um cristianismo que deixou de olhar para a cruz para mirar Jerusalém como centro político e espiritual.

Prosperidade, culpa e mercantilização da fé

Outra influência decisiva foi a teologia da prosperidade, difundida por pregadores como Kenneth Hagin e Oral Roberts. A mensagem é simples e sedutora: “plante uma semente de fé” — geralmente em forma de dinheiro — e colha prosperidade financeira e saúde.

Num país profundamente desigual como o Brasil, essa teologia encontrou terreno fértil. Ela promete ascensão social, cura e sucesso, desde que o fiel seja “generoso” em suas ofertas. O problema é que, nesse modelo, o pobre deixa de ser prioridade e passa a ser culpabilizado. A dor vira falha espiritual. A fé, investimento. E o fracasso, sinal de falta de merecimento.

O Cristo que lavou os pés dos discípulos dá lugar ao Cristo empresário. A cruz perde espaço para o palco. A compaixão é substituída pela performance.

A judialização dos templos e o retorno do sacrifício

Outro fenômeno analisado por Fernanda Cappellesso é a judialização dos templos. Pastores passaram a importar símbolos e rituais do Antigo Testamento: arca da aliança, mantos, fogueiras “santas”, pedras trazidas de Israel. Alguns templos se transformaram em verdadeiras sinagogas simbólicas, como o gigantesco Templo de Salomão, em São Paulo.

O problema teológico é profundo. O cristianismo nasceu justamente quando a fé deixou de estar restrita ao templo e passou a habitar o coração das pessoas. Cristo substituiu o sacrifício do altar. Mas hoje, muitos templos voltam a cobrar sacrifícios, agora travestidos de ofertas financeiras.

Fé, poder e idolatria política

A partir dos anos 1980, parte das lideranças evangélicas brasileiras aderiu ao chamado sionismo cristão, misturando fé e política. Israel deixou de ser apenas um país e virou profecia. O cristianismo passou a orar menos para a cruz e mais para Jerusalém.

Essa aliança abriu espaço para algo ainda mais perigoso: a transformação da fé em instrumento de poder político. Pastores se alinharam a governos, e o discurso religioso virou plataforma eleitoral. No Brasil, esse processo ficou evidente na idolatria de líderes políticos, como Jair Bolsonaro, tratado por muitos como “escolhido” ou “ungido”, em substituição simbólica a Cristo.

O cristianismo, que nasceu como um movimento contra a idolatria do poder, passou a se ajoelhar diante dele.

O chamado para um retorno ao Evangelho

O cristianismo começou nas ruas, nas casas dos pobres, entre os marginalizados. Hoje, parte dele se abriga em templos que vendem bênçãos em troca de boletos. Começou com um Cristo que servia; hoje, prega-se um Cristo que enriquece.

Quando a igreja fala mais de conquista do que de compaixão, mais de reinos humanos do que do Reino de Deus, ela deixa de ser cristã e se torna sistema.

O desafio que se impõe — como aponta Fernanda Cappellesso — é um retorno urgente a Cristo. À simplicidade do Evangelho. Ao valor da cruz. À compaixão pelos que sofrem. É preciso parar de usar Deus como patrocinador de campanhas políticas e voltar a ser comunidade.

Olhar menos para a Jerusalém política e mais para o Jesus do Evangelho.

Porque a fé que transforma não é a que promete vitória — é a que ensina a servir.

Imagem gerada por IA Chat GPT

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