Quando o salário mínimo vira “ameaça” — e o privilégio segue intocado

Por Damatta Lucas, Jornalista

No Brasil, a desigualdade não é apenas econômica. Ela é também editorial. Está nas escolhas, nos silêncios, nos alvos preferenciais da chamada grande imprensa. E o editorial publicado pelo Estado de S. Paulo, que classifica a política de valorização do salário mínimo como uma “aposta leviana”, é mais uma prova de que, para certos jornais, garantir dignidade aos pobres sempre soa como irresponsabilidade — enquanto proteger privilégios é tratado como virtude técnica.

O texto do Estadão não surpreende. Ele apenas reafirma uma tradição antiga: criminalizar políticas sociais, demonizar a redistribuição de renda e blindar o topo da pirâmide econômica. Quando o governo busca recompor o poder de compra do salário mínimo — corroído por anos de arrocho, inflação e precarização — o jornal fala em “abismo”, “irresponsabilidade fiscal” e “populismo”. Mas quando trilhões de reais escorrem para o sistema financeiro via juros extorsivos, o silêncio é ensurdecedor.

Dois pesos, duas medidas — sempre os mesmos

O mesmo jornal que se diz guardião das contas públicas jamais dirige sua artilharia aos verdadeiros ralos do orçamento. Não há editoriais indignados contra a política de juros altos do Banco Central, que consome centenas de bilhões de reais por ano. Não há escândalo retórico quando cada ponto percentual da Selic drena mais de R$ 50 bilhões do orçamento público para remunerar rentistas. Não há capas furiosas contra a Faria Lima, contra fundos especulativos, contra bancos que lucram como nunca em meio à miséria estrutural.

Para o Estadão, o problema nunca é quem ganha demais — é sempre quem ganha de menos.

Jornalismo que pisa nos pobres para não incomodar os poderosos

Chamar de “leviana” uma política que garante comida na mesa, remédio, aluguel e dignidade mínima a milhões de brasileiros é mais do que uma divergência econômica. É uma opção ideológica clara. O editorial não fala de trabalhadores reais, de famílias endividadas, de aposentados que sobrevivem com o mínimo. Fala de planilhas abstratas, sempre usadas como álibi para justificar desigualdades concretas.

O jornal ignora deliberadamente que a valorização do salário mínimo:

  • reduz desigualdades;
  • fortalece o mercado interno;
  • impulsiona o consumo local;
  • gera arrecadação;
  • movimenta pequenas economias regionais.

Nada disso interessa quando o compromisso editorial é com o mercado financeiro, não com a sociedade.

O incômodo com o Estado — desde que ele toque nos de cima

A seletividade do Estadão fica ainda mais explícita quando o jornal ataca o Judiciário e a Polícia Federal toda vez que investigações ousam subir a rampa social. Quando operações alcançam escritórios de luxo, fundos suspeitos, fintechs mal fiscalizadas, bets que drenam renda popular ou esquemas financeiros blindados por lobby no Congresso, o discurso muda: vira “excesso”, “insegurança jurídica”, “ameaça à economia”.

É o mesmo roteiro de sempre:
Estado forte para conter pobres. Estado fraco para regular ricos.

Não é economia. É projeto de poder.

Como bem apontaram vozes que reagiram ao editorial, o debate não é técnico. É político. É moral. É sobre quem paga a conta e quem manda no país. Para o Estadão, é “indecente” garantir recursos para políticas sociais, mas perfeitamente “lícito” que grandes empresas façam malabarismos contábeis para escapar da tributação sobre lucros e dividendos.

Esse não é um erro de análise. É um projeto editorial alinhado aos interesses históricos de uma elite que sempre tratou o povo como custo e o privilégio como direito adquirido.

O Brasil real não cabe no editorial do Estadão

Enquanto trabalhadores comemoram alguns reais a mais no bolso — diferença entre comer ou passar fome —, o Estadão prefere falar em “abismo”. Mas o verdadeiro abismo é outro: o que separa o país real dos editoriais escritos para agradar o mercado financeiro.

O salário mínimo não é o problema do Brasil.
O problema é um jornalismo que naturaliza desigualdades, criminaliza políticas sociais e se ajoelha diante do poder econômico.

E isso, sim, é leviano.

Imagem gerada por IA Chat GPT

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