A proposta de anistiar os condenados pelos atos golpistas de 2022 e 2023, apesar da forte pressão da oposição, enfrenta resistência crescente no Congresso Nacional. A ideia de conceder perdão aos envolvidos — incluindo lideranças políticas como o ex-presidente Jair Bolsonaro — esbarra não apenas em cálculos internos de deputados e senadores, mas também na rejeição da maioria da sociedade brasileira.
Para governistas e o presidente Lula, a anistia significaria legitimar ataques contra a democracia. O tema ganhou ainda mais sensibilidade com o julgamento da chamada Trama Golpista no Supremo Tribunal Federal (STF), que colocou Bolsonaro, militares e ex-assessores no banco dos réus por tentativa de golpe de Estado.
Pressões populares
Pesquisas recentes, como a da Genial/Quaest, mostram que 56% da população é contra a anistia aos envolvidos no 8 de Janeiro. Esse dado tem pesado nas decisões de parlamentares, que sabem do risco de desgaste eleitoral caso se alinhem ao perdão amplo e irrestrito defendido pela oposição.
“O Congresso está sentindo a pressão popular. Aprovar uma anistia nesse momento pode custar caro nas urnas”, explica o cientista político Rodrigo Prando.
O impasse na Câmara
Na Câmara, o presidente Hugo Motta (Republicanos-PB) é alvo de cobranças constantes da oposição para pautar o projeto. Porém, ele adota cautela: aguarda os desdobramentos do julgamento no STF e mede os riscos de desagradar o eleitorado.
Segundo analistas, Motta se equilibra entre manter diálogo com o governo e não perder apoio da ala bolsonarista. Mas, diante da resistência social, prefere evitar uma decisão precipitada.
O Senado como barreira
No Senado, o presidente Davi Alcolumbre (União-AP) já sinalizou que não aceitará o texto da Câmara, que prevê perdão geral. A proposta em discussão na Casa é mais restrita: redução parcial das penas, sem contemplar Bolsonaro.
Para especialistas, Alcolumbre se fortalece justamente por adotar uma posição mais dura, menos vulnerável às pressões da extrema direita. “Ele tem mais autoridade para enfrentar o bolsonarismo radical e já deixou claro que não aceitará anistia ampla”, avalia Prando.
Cálculo eleitoral e disputa interna
Embora parte da oposição utilize a pauta como bandeira política, até como forma de manter vivo o bolsonarismo para 2026, a resistência é cada vez mais evidente. Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), governador de São Paulo e possível herdeiro político de Bolsonaro, tenta capitalizar o tema. Mas até dentro da própria direita a estratégia divide opiniões.
A força da resistência
Com o Supremo avançando nas condenações e a sociedade majoritariamente contrária à anistia, a resistência tende a se consolidar. Parlamentares sabem que ceder ao perdão irrestrito pode significar não apenas desgaste político imediato, mas também rejeição popular duradoura.
O futuro do projeto, portanto, dependerá menos da pressão oposicionista e mais da capacidade da sociedade de manter viva a resistência contra qualquer tentativa de impunidade para os ataques à democracia.
Por Damatta Lucas – Imagem: Paulo Pinto


