Bonito o discurso do governador Tarcísio de Freitas agora. Bonito, articulado, até parece sincero. Mas não nos deixemos enganar pela encenação de quem tenta se reposicionar politicamente, agora que o jogo virou. O mesmo Tarcísio que hoje critica com ar de estadista as tarifas abusivas de Donald Trump contra os produtos brasileiros — especialmente os de São Paulo — foi um dos primeiros a vibrar quando a medida foi anunciada, respaldado por seu mentor político Jair Bolsonaro e o braço ideológico da família, Eduardo Bolsonaro.
Hoje, pressionado por empresários, produtores rurais e pelo clamor de setores que já contabilizam prejuízos, Tarcísio tenta se fantasiar de protagonista responsável. Quer posar de interlocutor com o Ministério da Fazenda, oferecer crédito, liberar ICMS, criar fundos garantidores. Fala até bonito sobre “interesse nacional” e “desenvolvimento tecnológico”. Mas a pergunta que não quer calar é: onde estava essa lucidez quando a taxação foi comemorada por seus aliados?
O governador de São Paulo, que até semana passada se comportava como pré-candidato informal da extrema direita para 2026, agora busca se distanciar discretamente de seu próprio passado recente. Mas a tentativa de escapar do desgaste público esbarra na realidade: ele foi alertado, desde o início, sobre o impacto nocivo das tarifas. Ignorou. Aplaudiu. E, quando sentiu que o vento mudou, passou a ensaiar um discurso mais técnico, supostamente pragmático.
A contradição vai além: se Tarcísio está tão indignado com as medidas de Trump, por que não cobra publicamente Eduardo Bolsonaro, que segue defendendo abertamente a punição econômica ao Brasil, como forma de retaliação ao processo que pode levar seu pai à prisão? Por que o governador, tão disposto a “dialogar”, não denuncia a sabotagem que vem de dentro do próprio campo bolsonarista, travestida de nacionalismo ferido?
A resposta é simples: porque Tarcísio quer agradar os dois lados. Quer parecer racional e equilibrado para o empresariado e o centro político, mas sem romper com o bolsonarismo raiz, de onde ainda pretende herdar capital eleitoral. É a velha política do “meio-termo confortável”, que, no fim das contas, não defende o Brasil, nem São Paulo. Defende apenas o próprio projeto de poder.
Enquanto o país sangra economicamente e os exportadores paulistas buscam saídas reais para uma crise que pode se aprofundar, Tarcísio prefere dar voltas com frases de efeito e se escorar em reuniões protocolares. O Brasil precisa de postura firme, não de cálculo eleitoral. Se o governador quer ser levado a sério como liderança nacional, que comece deixando de lado a covardia política e tomando uma posição clara: ou está ao lado do Brasil, ou ao lado dos que conspiram contra ele.
Por Damatta Lucas – Imagem: Alan dos Santos/PR


