Tarifaço de Trump ameaça travar exportações do Piauí e pode provocar prejuízo bilionário ao Nordeste

A imposição de uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros anunciada pelo presidente norte-americano Donald Trump — válida a partir de 1º de agosto — acendeu um alerta em todo o país, especialmente em regiões com baixa densidade industrial e elevada dependência das exportações primárias, como o Nordeste. Um estudo da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) estima que a medida pode provocar um rombo superior a R$ 16 bilhões na economia regional em apenas um ano, com impactos diretos e indiretos na produção, emprego e renda.

No Piauí, o impacto também é profundo. As perdas podem ultrapassar os US$ 42 milhões em exportações — cerca de R$ 233 milhões na cotação atual, atingindo de forma especialmente dura a cadeia do mel orgânico, produto que responde por mais de 85% das exportações piauienses aos EUA.


Estado pouco industrializado sofre mais

Com um parque industrial ainda em estágio incipiente e voltado em grande parte para o beneficiamento básico de produtos agropecuários, o Piauí figura entre os estados mais vulneráveis ao tarifaço norte-americano. Segundo dados da Sudene, o déficit comercial com os EUA é uma constante: em 2024, o estado exportou cerca de US$ 42 milhões e importou mais de US$ 49 milhões. Já no primeiro semestre de 2025, as exportações somaram US$ 20 milhões, enquanto as importações superaram os US$ 27 milhões.

Esses números revelam uma fragilidade na balança comercial piauiense e uma grande dependência de um único destino: os Estados Unidos, que absorvem quase 80% de todo o mel produzido no Brasil, segundo o setor produtivo. O cenário é preocupante, especialmente para estados como o Piauí, Ceará, Maranhão e Bahia, onde a apicultura é uma importante fonte de renda para milhares de pequenos produtores.


Cadeia do mel em colapso: mais de 680 toneladas canceladas

O setor mais afetado no estado é o da apicultura, responsável por gerar renda a mais de 12 mil pequenos produtores no Semiárido. Apenas o Grupo Sama, fundado há 28 anos em Oeiras (PI), teve a exportação de 585 toneladas de mel cancelada por clientes americanos após o anúncio do tarifaço. Outro cancelamento, de 95 toneladas, foi confirmado pela Central de Cooperativas Apícolas do Semiárido Brasileiro (Casa Apis).

Com isso, toneladas de mel ficaram paradas em portos, armazéns e câmaras refrigeradas, gerando custos extras de armazenamento e provocando um efeito cascata na cadeia produtiva. Segundo Samuel Araújo, CEO do Grupo Sama, “o custo do nosso mel vai dobrar. O preço é impraticável e trava qualquer negociação. É um impacto tão grave quanto o da pandemia da Covid-19”.


Efeitos multiplicadores na economia regional

Os impactos econômicos não se restringem aos exportadores. Toda a cadeia produtiva da apicultura — da coleta ao beneficiamento industrial — será afetada. As indústrias de processamento, muitas localizadas no Piauí e em São Paulo, também sofrem com a paralisação de contratos. Com menos produto saindo, há menos renda circulando, menos emprego e mais instabilidade econômica.

A Sudene alerta que, embora os produtos exportados pelo Nordeste — como mel, frutas, pescados e minerais — sejam majoritariamente primários, eles movimentam longas cadeias produtivas locais. Ou seja, a tarifa impacta muito além do exportador direto: atinge transporte, beneficiamento, logística, comércio e consumo, criando um efeito dominó em municípios já marcados por baixa arrecadação e fragilidade fiscal.


Buscando saídas: diversificação e novos mercados

Com os navios para os EUA já operando no limite antes da entrada em vigor da tarifa, as opções para o setor apícola são limitadas. A aposta agora está na diversificação dos mercados compradores. A Europa surge como alternativa, mas segundo o CEO da Sama, a negociação será desigual: “O mercado global é oportunista. Sabendo do prejuízo que temos com os EUA, outros países vão querer negociar com valores abaixo da média”.

Para Islano Marques, gestor corporativo da Área Internacional da Federação das Indústrias do Piauí (Fiepi), o desafio é também logístico e de escala: “Não há, hoje, outro mercado alternativo que absorva o mesmo volume que os Estados Unidos. Vamos precisar de uma estratégia agressiva de pulverização para não perder produção”.


O que pode ser feito?

Especialistas ouvidos pela Sudene e entidades empresariais propõem algumas medidas emergenciais e estruturais:

  • Intervenção diplomática junto ao governo dos EUA, buscando negociar exceções ou compensações;
  • Incentivos à industrialização regional, com foco em agregação de valor e menor dependência de commodities;
  • Apoio financeiro aos produtores impactados, evitando colapso da cadeia produtiva;
  • Promoção de feiras internacionais, para acelerar a entrada de produtos piauienses em novos mercados;
  • Criação de linhas de crédito especiais via Banco do Nordeste e BNDES para manutenção de estoques e reestruturação logística.

Ameaça

O tarifaço imposto por Donald Trump contra o Brasil revela, no caso do Piauí e do Nordeste, uma vulnerabilidade estrutural de longa data: a dependência de poucos mercados, a escassez de indústrias de transformação e a frágil integração ao comércio global em condições equitativas. A tarifa de 50% não é apenas uma barreira comercial — é uma ameaça direta ao sustento de milhares de famílias nordestinas. O desafio agora é transformar a crise em oportunidade: diversificar mercados, fortalecer cadeias produtivas e investir em valor agregado.

Da Redação – Imagem: Gov. do PI

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