A decisão unilateral de Donald Trump de impor uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros importados pelos Estados Unidos, incluindo itens do agronegócio, aprofundou o isolamento político de Jair Bolsonaro (PL) e desencadeou uma crise com fortes repercussões no campo político e econômico. Diante do impacto, o governo brasileiro iniciou uma ofensiva com empresários, diplomatas e líderes de estados exportadores na tentativa de reverter o tarifaço até o prazo informal de 1º de agosto — data sugerida por fontes diplomáticas como limite para um eventual recuo da Casa Branca.
O movimento do governo ocorre em meio ao crescimento da pressão de setores econômicos, principalmente do agronegócio, historicamente ligado ao bolsonarismo. Em grupos de WhatsApp de produtores rurais e entidades do setor, o que antes era apoio incondicional se transformou em críticas abertas a Bolsonaro frente à ofensiva de Trump. Uma liderança do setor agroindustrial classificou a atuação do ex-presidente como “negligente” e “ideológica”, agravando prejuízos bilionários com os novos tributos.
Anúncio de Tarcísio amplia disputa interna na direita
Em outra via, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), saiu em campo nesta semana e anunciou publicamente articulações com empresários e autoridades norte-americanas com o objetivo de “preservar os empregos e a competitividade da economia brasileira”. A declaração foi interpretada por analistas como um movimento político claro de diferenciação de Bolsonaro, com Tarcísio se apresentando como alternativa “pragmática” e “responsável” dentro da direita para 2026.
A iniciativa de Tarcísio foi bem recebida por setores da indústria paulista e até mesmo por lideranças do centrão, que vinham demonstrando crescente irritação com a postura conflituosa e desgastada de Bolsonaro. “Ele (Tarcísio) está enxergando o que Bolsonaro se recusa a ver: que a crise tarifária é real e que o Brasil precisa de interlocução, não de confronto”, disse um deputado do PSD.
Isolamento no Congresso e impasse sobre anistia
Fontes próximas ao Congresso Nacional indicam que Bolsonaro enfrenta um esvaziamento de apoio entre os parlamentares, inclusive dentro da direita moderada e do centrão, que vinham sustentando algumas pautas bolsonaristas por conveniência política. A repercussão negativa do tarifaço criou um novo ambiente no Legislativo, mais refratário a temas ligados ao ex-presidente.
Um dos principais efeitos colaterais da crise foi o engavetamento da proposta de anistia aos envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro, uma das principais bandeiras da base bolsonarista. A vinculação dessa pauta às pressões políticas de Bolsonaro sobre o Judiciário e aos apelos indiretos a Trump para retaliar o Brasil ampliou o mal-estar. “O risco de parecer que estamos legislando sob chantagem externa é inaceitável”, disse um assessor da presidência da Câmara.
Mesmo dentro da oposição, há avaliação de que Bolsonaro se tornou um ativo tóxico, desviando o foco de pautas econômicas e estruturantes. Parlamentares mais alinhados à racionalidade política observam que o radicalismo bolsonarista deixou de ser estratégico. O “efeito tarifa” serviu como catalisador de uma reconfiguração de forças dentro da direita, com Tarcísio, Zema e até Rodrigo Pacheco sendo ventilados como nomes mais viáveis para 2026.
Governo aposta em diálogo e pressão empresarial para conter prejuízos
Enquanto isso, o governo Lula articula, nos bastidores, uma força-tarefa envolvendo o Itamaraty, o Ministério do Desenvolvimento, entidades empresariais e governadores afetados, como Tarcísio e Ronaldo Caiado (GO), para apresentar uma contraproposta técnica e política ao governo Trump.
A ideia é demonstrar que a estrutura tributária brasileira, embora complexa, não justifica o ataque tarifário norte-americano, e que há espaço para revisão de práticas comerciais em bases multilaterais — evitando uma escalada protecionista que prejudique ambos os países. Empresários ligados à CNA, Fiesp e CNI devem ser os porta-vozes da pressão sobre o Congresso norte-americano e o setor privado dos EUA, que também teme retaliações.
Da Redação – Imagem: Tânia Rêgl


