Terrorismo de Estado e Imperialismo: quando a força substitui o direito internacional

O que está em curso na Venezuela não pode ser relativizado, suavizado nem tratado como “ação estratégica”. Trata-se de uma agressão direta à soberania de um país sul-americano, com uso de força militar, sequestro de um chefe de Estado e bombardeios em área urbana — atos que se enquadram, sem rodeios, como terrorismo de Estado.

Independentemente de qualquer juízo político, ideológico ou moral sobre o governo de Nicolás Maduro — que é, sim, legítimo objeto de críticas severas — nenhuma nação tem o direito de invadir outra, bombardear sua capital e sequestrar seu presidente. Esse é um princípio elementar do direito internacional, consagrado na Carta da ONU e em décadas de construção diplomática que buscam evitar exatamente o que agora se vê: a lei do mais forte substituindo as instituições globais.

Donald Trump, se de fato estivesse comprometido com a democracia, os direitos humanos e o combate ao narcotráfico, dispunha de todos os mecanismos legais internacionais para agir: denúncias formais em tribunais internacionais, sanções multilaterais debatidas em organismos competentes, investigações com respaldo jurídico. Não fez. Preferiu bombardear, interceptar embarcações sem provas conclusivas, impor bloqueios econômicos e, agora, atacar Caracas, colocando deliberadamente a população civil em risco.

Não se trata de combate às drogas. Nunca se tratou.

O petróleo, a China e a velha lógica imperial

Os fatos desmontam o discurso oficial de Washington. A Venezuela abriga a maior reserva comprovada de petróleo do planeta, recurso estratégico central para os interesses econômicos dos Estados Unidos. Trata-se, ainda, de um petróleo pesado ideal para refinarias norte-americanas, sobretudo as da Costa do Golfo.

Ao mesmo tempo, Caracas aprofundou relações com a China — principal rival geopolítico de Washington — utilizando petróleo como garantia em acordos financeiros que já somam dezenas de bilhões de dólares. Para a Casa Branca, isso é inaceitável. A resposta, mais uma vez, não foi diplomática: foi militar, coercitiva e unilateral.

O resgate explícito da Doutrina Monroe, formulada no século XIX para declarar a América Latina como “quintal estratégico” dos EUA, deixa claro que não há qualquer compromisso com autodeterminação dos povos. Há, sim, um projeto de hegemonia continental, sustentado, quando necessário, pelo uso da força bruta.

A imprensa internacional falha — e falha gravemente

Talvez o aspecto mais alarmante seja o comportamento de parte significativa da imprensa internacional. Em vez de tratar a invasão e o sequestro de um presidente como crime internacional, alguns veículos optam por normalizar, justificar ou até elogiar a ação de Trump.

Se qualquer outro país — Rússia, China ou Irã — sequestrasse um chefe de Estado estrangeiro após bombardear sua capital, o termo “terrorismo” seria imediato e unânime. Quando os Estados Unidos fazem, vira “operação”, “intervenção”, “ação preventiva”. Essa seletividade semântica não é inocente: ela legitima a barbárie.

Maduro é condenável? Sim. Mas não cabe a Trump decidir

É preciso ser claro para não permitir distorções: o governo Maduro é passível de críticas severas, inclusive por violações internas, autoritarismo e concentração de poder. Mas quem deve julgar isso são as instituições internacionais e, sobretudo, o povo venezuelano — não bombardeiros estrangeiros, nem presidentes que se colocam acima do direito internacional.

A própria resposta institucional venezuelana, com a posse interina de Delcy Rodríguez e sua carta pública defendendo diálogo, soberania e cooperação, desmonta a narrativa de que a única saída seria a guerra. Ainda assim, Trump respondeu com ameaças diretas, reforçando a lógica de intimidação e força.

Não é democracia. É terrorismo imperial

Bombardear uma capital, sequestrar um presidente, impor bloqueios econômicos que asfixiam a população e ameaçar líderes interinos não é defesa da democracia. É terrorismo de Estado travestido de política externa.

A América do Sul não pode aceitar esse precedente. Hoje é a Venezuela. Amanhã, qualquer outro país que ouse contrariar interesses estratégicos de Washington.

A história é clara: impérios não caem por excesso de diálogo, mas por abuso de poder. E quando a força substitui o direito, o mundo inteiro perde.

Por Damatta Lucas – Imagem Gerada por IA Chat GPT

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