Por Damatta Lucas
Donald Trump parece ter redescoberto a América do Sul — não por afinidade cultural, nem por convicção diplomática, mas por cálculo geopolítico. Desde seu retorno à Casa Branca, o republicano vem sinalizando uma guinada clara: reposicionar os Estados Unidos como força dominante no hemisfério, conter a influência chinesa e, se possível, consolidar um eixo de governos ideologicamente alinhados à sua agenda.
Essa reaproximação não nasce de um súbito interesse pelo continente, historicamente relegado a segundo plano por Washington. Ela é, antes, uma tentativa de reconfigurar o tabuleiro global, em um momento em que os EUA enfrentam a ascensão da China, a persistência da guerra na Ucrânia e o desgaste interno de seu próprio sistema político.
Trump percebeu que a América do Sul é o espaço ideal para demonstrar poder com baixo custo político: influência sem guerra, coerção sem enfrentamento direto com potências equivalentes.
O retorno da velha doutrina com nova embalagem
Há quase dois séculos, James Monroe sintetizou a política de domínio continental com a frase “a América para os americanos”. Trump, em pleno século XXI, parece ecoar o mesmo princípio — só que agora travestido de estratégia econômica, militar e ideológica.
Tarifas impostas ao Brasil, operações navais próximas à Venezuela e à Colômbia, sanções contra governos de esquerda e o apoio financeiro bilionário à Argentina de Javier Milei formam um mosaico coerente: reconstruir uma zona de influência norte-americana que havia sido corroída pela presença chinesa.
A retórica do combate ao narcotráfico serve como pano de fundo conveniente. Mas por trás do discurso moralista e do apelo à segurança, está o real objetivo: impedir que a China consolide seu domínio econômico e tecnológico na região. Trump e seus assessores — entre eles, o influente secretário de Estado Marco Rubio — enxergam a América do Sul como um campo de batalha estratégico, onde se decide quem controlará os recursos críticos e as cadeias de abastecimento do futuro.
A guerra fria do século XXI
O que Trump tenta impor é uma nova versão da Guerra Fria. Em vez de tanques e mísseis, agora se disputa influência, crédito e infraestrutura.
A China, com sua política de investimento maciço e empréstimos sem condicionantes ideológicos, tornou-se o principal parceiro comercial de boa parte dos países sul-americanos. Os Estados Unidos, em resposta, buscam reconquistar espaço oferecendo “ajuda” seletiva, condicionada à lealdade política e alinhamento geoestratégico.
O exemplo mais simbólico é o da Argentina. Ao conceder um pacote de US$ 20 bilhões a Javier Milei, Trump não apenas apoia um aliado ideológico, mas também manda um recado ao continente: quem se aproxima de Washington pode ser recompensado — quem resiste, será punido.
É uma diplomacia de castigos e favores, mais próxima de uma tática empresarial do que de uma política externa sustentável.
O Brasil e o dilema do alinhamento
No caso brasileiro, o cenário é ambíguo. Trump manteve tarifas pesadas sobre produtos nacionais, ao mesmo tempo em que tenta reabrir canais de diálogo com o governo Lula.
Para o Brasil, o desafio é resistir à pressão para se tornar peça de manobra nessa disputa entre superpotências. Manter autonomia estratégica significa equilibrar-se entre dois polos de poder — os Estados Unidos, com sua tradição de controle político, e a China, com seu pragmatismo econômico.
Essa tensão define o novo mapa da América do Sul. Cada decisão comercial, militar ou diplomática pode significar a escolha de um lado nessa guerra silenciosa pelo futuro do continente.
Trump, o ideólogo e o estrategista
Há também um componente ideológico claro. Trump vê líderes como Milei ou o recém-eleito boliviano Rodrigo Paz não apenas como parceiros comerciais, mas como espelhos políticos de sua própria visão de mundo: ultraliberalismo econômico, conservadorismo moral e antipatia declarada a governos progressistas.
Sua meta parece ser reconstruir uma espécie de Internacional da Direita, em escala continental.
Mas essa ambição esbarra em contradições. O intervencionismo norte-americano sempre produziu resistência — e a retórica agressiva de Trump tende a despertar lembranças incômodas na região: golpes patrocinados, bloqueios econômicos, invasões “humanitárias”.
A tentativa de reviver o protagonismo dos EUA pode, paradoxalmente, fortalecer os movimentos nacionalistas e aumentar a busca por alternativas à tutela de Washington.
Entre o império e o vácuo
O verdadeiro interesse de Trump não é a prosperidade da América do Sul, mas a construção de um cordão de segurança diante da ascensão chinesa e do declínio da influência americana em outras partes do mundo.
A região volta ao mapa não como prioridade de desenvolvimento, mas como escudo estratégico — um campo onde os EUA ainda podem vencer, porque o adversário não tem como revidar diretamente.
Em última análise, a América do Sul é o espelho das ansiedades do império. Quando os Estados Unidos se sentem fortes, olham para a Ásia e para o Oriente Médio. Quando se sentem ameaçados, voltam-se para o próprio quintal — e tentam reafirmar o poder pela força.
Trump, fiel a seu estilo, não quer apenas “fazer a América grande novamente”. Quer fazer da América do Sul um território de sua influência novamente.
A questão é se os países da região aceitarão, mais uma vez, esse papel subordinado — ou se aprenderam, finalmente, a dizer não ao velho jogo das potências.
Imagem Gerada Por IA ChatGPT


