Por Damatta Lucas
O mundo está prestes a assistir a uma mudança radical no equilíbrio do comércio internacional – e, mais uma vez, os Estados Unidos, sob a liderança do republicano Donald Trump, ocupam o centro do furacão. Com um pacote agressivo de tarifas que atinge aliados e rivais, o presidente parece determinado a colocar os EUA em rota de colisão com o restante do planeta. A partir de 1º de agosto, o Brasil poderá se tornar o principal alvo da nova “metralhadora tarifária” de Trump, com uma taxa de 50% sobre produtos de exportação e uma investigação comercial sem precedentes, que inclui desde grandes empresas até pequenos comerciantes da 25 de Março e o uso do sistema Pix.
Analistas alertam: não se trata de uma política econômica racional. Trata-se de retaliação política disfarçada, uma guerra comercial ideológica contra países que, como o Brasil, estão promovendo o julgamento e condenação de líderes da extrema direita, como Jair Bolsonaro – aliado próximo e admirador declarado do presidente norte-americano.
Guerra tarifária ou chantagem global?
A política comercial de Trump já não pode mais ser chamada de protecionista. É uma tentativa de imposição global. O aumento unilateral de tarifas está desorganizando cadeias produtivas inteiras, prejudicando empresas norte-americanas que dependem de insumos e produtos estrangeiros e empurrando países aliados para novos blocos e acordos econômicos.
O Brasil, que vinha reforçando sua integração com o Mercosul e buscando ampliar acordos com a União Europeia, EFTA, Emirados Árabes e países da Ásia, agora vê-se na linha de frente de uma ofensiva tarifária que pode custar bilhões em exportações e empregos. No pano de fundo, uma investigação comercial do governo Trump que sugere que o país estaria favorecendo o mercado informal e o uso de moedas e transações digitais fora dos interesses dos EUA – como o Pix, que virou alvo de críticas infundadas e xenófobas.
Um efeito dominó: Europa, Ásia e América Latina em reação
As ações de Trump estão acelerando o redesenho da geopolítica comercial. União Europeia e Ásia, antes dependentes dos EUA, agora reforçam parcerias entre si. Em março de 2025, China, Japão e Coreia do Sul retomaram o diálogo econômico para formar um tratado de livre comércio abrangente – um movimento quase impensável anos atrás.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, foi direta: “vivemos tempos turbulentos e, quando a incerteza econômica encontra a volatilidade geopolítica, parceiros como nós precisam se aproximar”. Uma resposta clara à instabilidade causada por Washington.
A China, por sua vez, avança de forma estratégica. Já é o maior parceiro comercial de 140 países e ampliou o comércio com a Asean (Associação de Nações do Sudeste Asiático), com destaque para economia digital e verde. África e América Latina também entraram na rota da diplomacia econômica chinesa – pragmática, previsível e distante da retórica beligerante dos EUA.
América Latina como eixo de resistência?
O Brasil, ao lado de México, Argentina e Chile, surge como polo de resistência à nova ordem imposta por Trump. No México, o impacto de uma tarifa de 17% sobre o tomate foi devastador. Especialistas alertam para o risco de desemprego em massa e crescimento da migração ilegal como efeitos colaterais diretos da política trumpista.
No Brasil, a resposta vem com uma guinada rumo à Ásia e aos países árabes. A presidência do Mercosul tem reforçado as negociações com Japão, Vietnã, Indonésia e Emirados Árabes. “Queremos encerrar o ano com a assinatura de acordos estruturais com blocos que nos garantam estabilidade e previsibilidade”, afirmou uma fonte próxima ao Itamaraty.
O risco de um isolamento norte-americano
O cenário é claro: a obsessão de Trump em punir adversários ideológicos e reimpor a supremacia americana está corroendo a confiança global nos EUA como parceiro comercial. Para o professor Evandro Menezes, da FGV, “um comércio desorganizado prejudica todo mundo – inclusive os próprios norte-americanos”.
O isolamento dos EUA, nesse ritmo, pode se tornar uma realidade política e econômica. As grandes economias buscam novos caminhos. O Brasil, embora pressionado, tem a chance histórica de liderar esse movimento de reação, defendendo um comércio multilateral justo e blindado contra o autoritarismo disfarçado de soberania econômica.
A história está em curso. E Trump, cada vez mais, arrisca transformar os Estados Unidos numa fortaleza sitiada por sua própria arrogância.
Imagem: ChatGPT


