Por Antonio Luiz Moreira
Há momentos na história em que a máscara cai, e o que vemos é puro abuso de poder. O que Donald Trump está fazendo com o Brasil é um desses momentos. Não se trata de diplomacia, comércio ou mera disputa política. É ingerência direta na soberania de um país que ousou cumprir a lei e proteger sua democracia.
Sim, ousou. Porque, no mundo que Trump tenta moldar, punir golpistas é afronta. O Brasil, por meio de sua Suprema Corte, está processando Jair Bolsonaro por tramar um golpe de Estado — um crime que manchou nossa história em 8 de janeiro de 2023, quando a extrema direita invadiu e depredou os prédios dos Três Poderes.
Nos Estados Unidos, dois anos antes, Trump alimentou o mesmo veneno político. Seus apoiadores invadiram o Capitólio, mas lá as instituições falharam em aplicar as punições que a Constituição prevê. Resultado? Trump saiu ileso, fortalecido e, agora, vingativo.
A vingança não é apenas simbólica. Desde julho, Trump impôs tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, abriu investigações comerciais sem fundamento e usou a Lei Magnitsky para sancionar o ministro Alexandre de Moraes. Não é diplomacia — é chantagem. Não é defesa de interesses nacionais — é retaliação pessoal.
Steven Levitsky, cientista político de Harvard, chamou o caso pelo que ele é: uma ironia vergonhosa. Vergonhosa porque os Estados Unidos, que falharam em conter seu próprio golpista, agora punem o Brasil por ter feito o que eles mesmos deveriam ter feito.
O paralelo é inevitável. No Brasil, Jair Bolsonaro responde no Supremo Tribunal Federal por articular um golpe de Estado após perder as eleições de 2022, culminando na invasão dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023. Nos Estados Unidos, em 2021, Donald Trump inspirou uma invasão ao Capitólio após sua derrota — e até hoje não foi responsabilizado judicialmente por isso. Lá, as instituições recuaram. Aqui, o STF agiu.
É justamente essa postura firme da Suprema Corte brasileira que enfurece Trump. Desde julho, ele pressiona publicamente pela suspensão do processo contra Bolsonaro, chegando ao cúmulo de impor tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, abrir investigações comerciais e acionar a Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes, relator da ação penal. Trata-se de um claro uso da política externa como instrumento de intimidação.
Levitsky foi direto: “A Suprema Corte brasileira, neste caso, agiu como um super-herói, defendendo a democracia de forma agressiva.” Enquanto a Suprema Corte americana titubeou, a brasileira ergueu um escudo. E é exatamente por isso que o Brasil está sendo alvo de retaliações.
O recado que essa crise envia ao mundo é perigoso: punir um país por aplicar sua própria lei abre um precedente que ameaça todas as democracias. Se a soberania nacional pode ser negociada em troca de favores políticos externos, que tipo de independência nos resta?
A mensagem é clara e perigosa: se um país ousar aplicar sua Constituição contra um aliado de Trump, pagará caro. É a substituição do Estado de Direito pela lei do mais forte — e, nesse caso, o mais forte age como um capanga político.
O Brasil não pode aceitar. Não é apenas uma questão de tarifas ou sanções. É o princípio elementar de que nenhuma nação estrangeira pode dizer quem devemos ou não processar, nem como devemos aplicar nossa Constituição. Soberania não se negocia. Democracia não se vende.


